Resenha do livro "As seis lições" de Lodwig Von Mises



A presente resenha crítica se restringirá, basicamente, a análise do capítulo 1 - "O Capitalismo", da obra “As Seis Lições” de Ludwig Von Mises. Em apertada síntese, nesse primeiro capítulo, o Autor narra que as primeiras ideias acerca do sistema capitalista giram em torno da resistência apresentada pela classe dominada (população menos favorecida economicamente) contra o sistema aristocrático, regido pela classe dominante (detentora das riquezas), até então vigente na Europa.

Nesse sistema aristocrático, somente uma pequeníssima classe de pessoas detinham poder e boas condições financeiras, enquanto as massas restantes não possuíam os mais basilares recursos financeiros, sendo incapazes de gerir sua subsistência básica. Com o fito de manter tal status, os aristocratas defendiam que seriam a imagem e os representantes de Deus na terra, especialmente nomeados para garantir o “progresso” da humanidade (na verdade, de si próprios). E, diante dessa missão sagrada, deveriam reger todo o sistema, impondo sua vontade sobre os demais. Nesse contexto histórico, as famílias bastardas permaneciam ricas, enquanto as famílias pobres assim permaneciam, de geração em geração. A estagnação social é característica marcante desse sistema. Não havia influxo entre as classes de pessoas.

Em razão do excesso de mão de obra no campo e escassez de matéria prima, o Autor expõe que uma pequena parcela dessas pessoas miseráveis começaram a se organizar e a produzir bens de consumo, podendo ser adquiridos por todos. Justamente daí que surgiram as primeiras idéias em torno do capitalismo primitivo, a conquista de poder da classe carente, resultado na melhora da qualidade de vida de todos. O Autor afirma que as empresas que se formavam por essa classe de pessoas pobres tinham o propósito de suprir as necessidades das massas oprimidas, o que é plenamente passível de criticas. A classe dominada revoltou-se contra o sistema até então vigente (aristocrático) não porque eram altruístas e desejavam garantir o bem comum, mas sim porque eram exploradas, desejavam sair da miséria e obter lucro e deixar a miséria. O interesse primordial motivado é privado (interesses pessoais), e não público (interesse geral). Entendimento diverso seria interpretação romancista sobre a natureza humana. O Autor realmente reconhece, no capítulo 2 (pág. 42) e demais oportunidades ao longo das palestras, que o motor das pessoas, no capitalismo, “não é o altruísmo que os move; é seu desejo de ganhar dinheiro”.

Agora, o ponto central da presente resenha está relacionada a ideia de que, para o Autor, é um pensamento equivocado acreditar que as grandes empresas detém poder exorbitante, pois o real poder emana dos consumidores/povo. Se os consumidores param de adquirir certo bem de consumo, tal conduta seria uma ordem indireta para o empresário reformular suas práticas comerciais. Assim, em última análise, o poder emana dos consumidores, e as empresas não possuem poder. Referido posicionamento retratado pelo Autor talvez seja justificável já que na época em que fora proferidas as palestras (1958), não existiam as grandes corporações tal conforme se verifica nos dias atuais. Ainda assim, é preciso e válido traçar breves ponderações a respeito do tema.


A crise financeira de 2008, que culminou na demissão de milhões de trabalhadores e a falência de milhares de empresas ao redor do mundo, é o maior retrato de como as grandes corporações podem regular países, implementando um capitalismo não democrático e desprovido de valores éticos/morais. Ronald Reagan, presidente americano eleito em 1981, sempre teve vinculo com a mídia do entretenimento dos EUA, apresentando fortes vínculos com o meio empresarial americano. Ronald Regan foi eleito presidente americano basicamente por Don Regan, presidente da Merrill Lynch, maior empresa de corretagem do mundo. Don assumiu a Secretaria do Tesouro americano. O governo de Ronal Regan impôs uma política liberal em prol das empresas, com a diminuição de tributação sobre as empresas, além de passar com o controle governamental para Wall Street.


Wall street, representação máxima dos interesses capitalistas e das grandes corporações, passou a ser local “sagrado” pelos magnatas e lobistas, representando a abençoada vontade de Deus na América, de modo semelhante como os aristocratas se auto proclamavam na sua época de vacas gordas. Vivia-se o verdadeiro sonho americano, com grupos empresariais afrouxando os regulamentos bancários através do lobby com os governistas, sob o pretexto de que, com o afrouxamento desses regulamentos financeiros, a vida de todo cidadão americano iria aumentar de padrão. Foi assim que o Governo americano, através do FED, atendendo os interesses dos bancários, passaram a permitir os notórios "empréstimos hipotecários". 


A partir de então, as instituições bancárias venderam a ideia para o cidadão comum americano de que a residência, o imóvel, não poderia ficar "congelado", sem utilidade nenhuma. O cidadão deveria realizar um empréstimo hipotecário junto aos bancos, para aumentar o consumo e fomentar a prosperidade da nação, fazendo a economia girar por meio do consumo. Para tanto, seria "apenas" necessário deixar seu imóvel como garantia do pagamento futuro do empréstimo. Os bancos passavam a ideia de que esse pagamento futuro seria facilmente realizado. Não havia o que se preocupar. A grande questão é que as instituições bancárias já sabiam que os cidadãos americanos seriam incapazes de efetuar o pagamento dos exorbitantes juros cobrados, e que, diante do inadimplemento, pegariam a casa como garantia do pagamento do empréstimo. Resultado: milhares de famílias americanas perderam suas casas, seus lares, além de inúmeras outras ao redor do mundo. E olha que, para Mises, os EUA é um grande exemplo de capitalista de sucesso. Existem várias referencias disso ao longo de suas exposições, dispostas no livro discussão.

É praticamente consensual que a crise de 2008 é fruto de regulação financeira inadequada, combinada com frouxa polícia monetária conduzida pelo FED. E o pior de tudo é que, mesmo após o colapso financeiro vir a tona, e diante de milhares de manifestações populares e de congressistas contrários, o Governo americano, por meio da utilização de recurso obtidos por tributos pagos pelo cidadão comum, realizou o socorro aos bancos. Nada mais do que 800 bilhões de dólares foram repassados as instituições bancárias (e outros empresas), sob o pretexto de que essa medida salvaria a nação de entrar na maior depressão financeira de sua história. 

A crise de 2008 representou o fim do capitalismo democrático na América. Não há duvidas que o capitalismo é o melhor sistema financeiro existente, sendo o responsável pelo progresso da humanidade. O grande problema é que o capitalismo, por si só, ao menos em alguns países e diante de inúmeras outras circunstâncias, não nos parece ser a solução ideal. É preciso sujeitarmos, isso sim, a um capitalismo democrático. Como visto pela breve história da crise de 2008 retratada acima, o capitalismo, como um fim em si mesmo, é capaz de provocar mal estar social e injustiças. O atual estágio do capitalismo, muito diferente daquele narrado por Lodwig Von Mises em suas palestras, remonta a ideia de que o sistema democrático e os princípios morais/éticos devem estar acima do capitalismo.

O Terceiro Reich alemão, liderado por Hitler, responsável pelo extermínio de milhões de seres humanos, por exemplo, era um Estado de Direito, mas desprovido de caráter democrático. O final de história todos sabem: milhões de pessoas exterminadas, famílias e países arruinados. Veja que a efetivação do princípio democrático impede a humanidade de voltar ao estado de natureza, do estado de guerra, do "olho por olho, dente por dente", previsto no Código de Hamurabi. Impede a auto destruição de humanidade. A crise de 2008 representa como o ser humano, regido num sistema capitalista, gera pessoas (e empresas) gananciosas e egoístas, pouco importando sobre os direitos e bem estar dos demais. 

Repita-se, não há dúvidas que o sistema capitalista é o melhor de todos existentes. Agora, o capitalismo, por si só, também pode provocar efeitos totalmente contrário à sua principal pretensão: gerar lucro/riqueza (e, consequentemente, prosperidade para todos). O capitalismo democrático, aliado ao respeito aos valores éticos, morais e ambientais, nos parece ser o modelo a ser discutido, aperfeiçoado e defendido pelas ideias liberais modernas, sob risco das sociedades retroagirem ao estado de natureza. Nem todos os países possuem pessoas, ideias e capacidade de, por meio do um sistema capitalista pleno, provocar a prosperidade de toda a nação. Nos parece que, para esses tipos de países, tais como os EUA e Brasil, somente um capitalismo democrático, responsável, seria capaz de atingir a prosperidade e o respeito aos direitos básicos de todos.


Entre 2005 e 2006, o Citibank emitiu memorandos confidenciais direcionados a seus principais acionistas expondo como seus negócios estavam andando. Os memorandos foram vazados a imprensa. Os documentos concluíam que os EUA não eram bem uma democracia, mas uma plutonomia, sociedade controlada por e para o benefício de apenas 1% da população mais abastarda, que detinha mais riqueza do que 95% da população. Tiram vantagem do hiato crescente entre os ricos e os pobres, com o fato de serem agora a nova aristocracia. Afinal, estaríamos, de fato, caminhando a um capitalismo aristocrático? Somente o tempo irá responder. 

O ponto central é fazermos nossa parte na construção de um mundo melhor fundado na ideia que o sistema capitalista deverá caminhar aliado aos princípios democráticos, morais, éticos e a preservação da natureza para as futuras gerações.

* A presente resenha foi produzida para os "Jovens Líderes", instituto com objetivo de de formar empreenderes e líderes comprometidos com o contínuo desenvolvimento do Espírito Santo e do Brasil, a partir de uma proposta desvinculada do sistema tradicional e baseada nos princípios liberais.



Comentários

  1. Excelente texto, gostaria de deixar algumas ressalvar em certos pontos.

    Ao meu ver, o capitalismo puro, como descrito na literatura liberal clássica, é o melhor sistema econômico elaborado até então. Acredito que concordamos até aqui.

    Porém, separando o joio do trigo, eximo o capitalismo de ser "capaz de provocar mal-estar social e injustiças", uma vez que o Laissez-faire torna o ambiente econômico igualitário, onde serão ideias contra ideias, sobrevivendo os que prestarem os melhores serviços, sem que haja qualquer uso das leis do estado que venham "proteger" empresas de possíveis concorrentes e futuros fracassos.

    E é nesse momento, nesse exato momento, que eu prefiro não chamar o sistema econômico descrito de capitalismo e sim de corporativismo/capitalismo de compadrio/capitalismo de clientelista/capitalismo de laços, tudo que venha a não deturpar a razão principal do que vem a ser o capitalismo.

    Muitas vezes o capitalismo nos é apresentado de forma caricata, com a sensação de sempre estarmos falando de "patrões", quando na verdade estamos falando de defesa a propriedade privada, além da liberdade de tomar suas próprias decisões sem que haja espoliação de agentes externos (Muitas vezes o estado).

    Na minha opinião, atribuo o mal-estar social e injustiça como obras do Estado, uma vez que "legitimamos"¹ o mesmo para ser responsável por alocar o enorme montante que arrecada todos os dias, aliás, que mal consegue controlar suas próprias dívidas², quem dirá contribuir para um bem-estar social com um gasto público de 70%³ com gastos próprios.

    Vivendo no Brasil, fica até difícil defender um minarquismo, talvez falte um pouco de criatividade dos envolvidos para ver que o Estado não precisa fazer tudo, e melhor, ele ao menos consegue fazer o básico!

    Por fim, concordo com boa parte da sua visão e reitero que deveríamos sim que nos envolver cada vez mais. Por vários anos a política foi vista como algo que "não se discute", enquanto diversas pessoas gananciosas tiveram um terreno limpo e desimpedido para crescerem, criarem leis para se perpetuarem no poder e se tornarem um estado do tamanho que vemos hoje.

    Do mais, é isso, boa resenha.

    Victor.

    ¹- Legítimo, aquilo que é consentido, não havendo o meu consentimento eles me espoliarão com leis diversas, portanto o destaque das aspas na palavra "legitimamos".
    ²- http://www.valor.com.br/financas/5408421/divida-publica-federal-atinge-r-358-trilhoes-em-fevereiro
    ³- http://www.valor.com.br/brasil/5211403/divida-bruta-do-setor-publico-bate-recorde-ao-alcancar-744-do-pib

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    1. Perfeitas colocações Vitor. Obrigado pela contribuição.

      A presente resposta está dividide em 2 partes devido ao tamanho que não é aceito pelo Blogger.

      A partir de seu comentário, acredito que a discussão em gira em torno de: Estado X Capitalismo. E qual seria a pedra fundamental para o progresso da humanidade, para que todos possam crescer e gerar riqueza, saindo da miséria material (e intelectual).

      De fato, o Capitalismo em sua essência, conforme descrito por você, seria aquele exercido em um mercado livre, com a mínima interferência Estatal, somente em ponto cruciais, tais como segurança, saúde, educação, infra-estrutura etc, lei para impor limites aos agentes estatais, tudo a depender da corrente liberal adotada.

      Não obstante, me parece que seu comentário seria um caso de amor para com o Capitalismo, tal como é comumente diagnosticado nos liberais, de um modo geral. Como que esse sistema econômico, por mais que seja o melhor já criado (não há dúvidas quanto isso), seria capaz, por si só, de gerar segurança, riqueza, prosperidade, igualdade de condições, democracia, educação etc.

      Nesse sentido, trago a tona 3 questões, que talvez podem contribuir para os debates. A saber:
      1) Origem e função do Estado
      2) Fator multicausal para o progresso da humanidade
      3) A importância da Democracia para garantir igualdade de condições e, consequentemente para gerar progresso

      A insegurança reinou durante grande parte da história da humanidade. Basta assistirmos filmes mais antigos para entendermos isso.

      Seu pai poderia sair para caçar de manhã para trazer comida para casa e nunca mais voltar. Ele poderia ser saqueado, extorquido, morto, roubado ou até mesmo sofre suplício. Nessa época, o "Olho por olho, dente por dente" era levado extremamente a sério.

      Inexistia uma figura centralizadora de poder. A bem da verdade, as pessoas faziam o que quisessem e saiam sem qualquer punição para isso. Os que detinham o poder em suas mãos não eram punidos. Somente existam punições para os que não detinham poder. E essas punições eram extremamente violentas, diga-se de passagem. Basta ler o início do livro “Vigiar e punir” de Michael Foucoult, para verificar a evolução das punição da humanidade e o poder por detrás desse processo.

      E o pior, dificilmente havia um processamento para averiguar a verdade real, se realmente a pessoa acusada teria feito o que esta sendo acusada.

      Após muitas mortes, batalhas, idéias, anos, veio o Absolutismo (séculos XIV e XV). Nesse período reinava a ideia de que o Rei é a figura de Deus na Terra. Todas as funções e poderes estavam unificadas na sua figura, sendo absoluto, isto é, acima de lei e de todos. E, por isto, poderia fazer o que bem entender com a vida e propriedade alheia. Poderia simplesmente pegar sua mulher para si, por tê-la achado interessante, principalmente se você fosse um simples camponês.

      Mais guerras, batalhas, mortes, discussões. Alguns seres iluminados nasceram para trazer o progresso a humanidade. Enfim, surge o Estado Moderno, a partir da fragmentação do sistema feudal. Tem como berço a Europa Ocidental, países como Inglaterra, França, Espanha e Portugal.

      Em apertada síntese e sem a técnica do jurista Paulo Bonavides , poderíamos afirmar que o Estado, ao menos logo no início de sua concepção, tinha a função de garantir minimamente que as pessoas pudessem conviver em harmonia e segurança. Os malfeitores deveriam ser punidos, pois todos, os governantes e os governados, estão submetidos a lei. Tudo bem que não era bem assim. Mas vamos lá.

      Assim, o Estado centraliza o poder, monopolizando a violência legítima (Max Weber), dentre de um sistema de freios e contrapesos entre o Poder Judiciário, Legislativo e Executivo, tudo sendo gerido pelo Ordenamento Jurídico, criado pelos Legisladores, que são eleitos pelo povo. Em última instância, assim, o Poder emana do povo.

      Veja que, na teoria, a figura do Estado resolveria todos nossos problemas, e não resolveu. A meu ver a mesma lógica também é aplicável ao capitalismo.

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    2. PARTE 2

      Agora batendo diretamente em seu comentário, o problema não está na figura do Estado, mas nos Governantes e Governados. Entender que o problema seria a existência da figura do Estado na sociedade, como muitos liberais e ou libertários defendem, seria acreditar em papal Noel e ignorar a história, a ciência política.

      É necessária ler mais Paulo Bonavides para entendermos melhor a importância do Estado, e quais são as conseqüências de uma sociedade sem a sua figura, principalmente em uma sociedade igual a nossa. E o mais importante, é justamente a partir da concepção do Estado que anos depois, o sistema capitalista e a revolução industrial vieram à tona.

      A operação Lava jato, por exemplo, demonstra claramente que a corrupção só ocorre se existem 2 lados, 2 figuras. É preciso o empresário, o lobista, o doleiro, mas também os políticos, ali “representando” o Estado.

      Concluindo esse ponto, o problema não está na figura do Estado, no sistema capitalista etc, mas nas pessoas, tal igual ocorre em uma sociedade gerida por capitalistas totalmente descompromissados com a ética, os valores morais, a preservação do meio ambiente etc. Como que a riqueza, por si só, pudesse garantir o oxigênio que seus filhos, netos e tataranetos precisaram daqui a 200 anos.

      Com relação ao segundo ponto desse meu comentário (Fator multicausal para o progresso da humanidade), de um modo geral, os Liberais e ou Libertários (e afins) possuem um fetiche pela capitalismo a ponto de deixá-los cegos.

      Esse fetiche gira em torno da ideia de que a sociedade gerida pelo sistema capitalista, praticamente por si só, seria capaz de gerar prosperidade, igualdade de condições, saúde, educação etc.

      Por outro lado, partindo de uma visão mais holística e imparcial acerca dos aspectos por detrás do progresso da humanidade, chegaremos a conclusão de que o sistema capitalista é apenas um dos inúmeros fatores que provocam o progresso das grandes nações.

      O sistema capitalista seria “A semente dos Deuses”, no sentido de seu um fator crucial para o progresso. Seria como se fosse o corpo, mas só que sem a alma desfalece. Por mais que se tenha “A semente dos Deuses” é preciso de um solo fértil para germinar, crescer, evoluir e gerar frutos (enfim, prosperidade para todos).

      Agora, o solo fértil seria: 1) existência da figura de um Estado, centralizando o poder; 2) sistema de Leis, impondo limitações a atuação de todos, principalmente dos agentes estatais e públicos; 3) Poder Judiciário imparcial; 4) sistema político e ativa participação popular; 5) liberalismo e livre mercado; 6) democracia etc.

      Para entender melhor essa questão, sugiro ler o “Por que as Nações Fracassam” de Daron Acemoglu e James Robinson. Irá compreender melhor que a prosperidade das nações é resultado multicausal, e não unicausal como muitos liberais defendem.

      Por fim, quanto ao terceiro ponto (A importância da Democracia para garantir igualdade de condições e, consequentemente para gerar progresso), os liberais pouco ou nada sabem a respeito da ideia ou a importância do sistema democrático de governo.

      Como já dito, os liberais acreditam no conto de fadas de que o capitalismo é capaz de tudo. Que o capitalismo é um fim em si mesmo. Falam assim porque possivelmente sempre tiveram acesso a educação, saneamento básico, alimentação, sistema particular de saúde, acesso aos seus direitos mais básicos, vivendo em uma ambiente social e familiar minimamente digno.

      A crítica aqui não gira em torno da existência de desigualdades no sistema capitalista. Ela existe e é extremamente natural, sempre existiu e existirá. É exatamente assim que tem que ser. Cada um é dono de seu próprio destino, através de seu mérito etc (e milhões de outros fatores, como conhecimento, acesso à educação, saneamento básico, direitos mínimos existenciais, saúde, herança, propriedade privada etc).

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    3. PARTE 3 (FINAL)

      A questão que me parece ser pouco debatida pelos liberais seria sobre a grande importância da democracia, aqui referida no sentido de criação de igualdade de condições para todos em acesso a educação, saneamento básico e saúde, seja através do Estado, pela Iniciativa Privada ou pelo terceiro setor ou, ainda, pela co-participação desses três.

      Afinal de contas, um grande fator de enriquecimento duradouro das nações é a tecnologia, que somente é gerada por uma população com acesso à educação digna.

      Em conclusão, veja que o sistema capitalista não é um fim em si mesmo, sendo incapaz de gerar prosperidade sem a existência de inúmeros outros fatores.

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  2. 1ª Parte -

    Primeiramente, acredito em uma forma de estado, na segurança e garantia de leis de proteção. Qualquer outra atividade não, somente se não houver espoliações.
    Liberal Conservador, sendo o primeiro economicamente e o segundo e questões do costume. (Leia-se conservador do conceito Edmund Burke, Roger Scruton, não o conceito deturpado no Brasil para algo como “religioso”).

    Pois bem, para conclusão da discussão vou me ater ao questionamento mencionado de “Qual seria a pedra fundamental para o progresso da humanidade?”

    Em relação ao conteúdo apresentado em sua resposta, resumo-a de forma bem simplista de que em sua análise a “Pedra fundamental” para o progresso seriam inúmeros outros fatores que não somente o Capitalismo.

    Utilizando a referência ao amor pelo capitalismo exposto pelos liberais e libertários, afirmo que não seria por menos, uma vez de que esse sistema econômico gerou todo o avanço que conhecemos hoje, e te explico discorrendo a seguir.

    As nações só provaram do progresso, da riqueza, em tempos modernos, contrário à criação de Estados e Leis que surgiram a centenas de anos antes de Cristo em calendário romano.
    O Estado nem as leis geram o progresso porque eles não têm essa capacidade. Vide a qualidade de vida dos povos antigos e geração de riqueza comparados com o hoje.

    “Durante a maior parte da história, a economia permaneceu mais ou menos do mesmo tamanho. Sim, a produção global aumentou, mas isso se deveu principalmente a expansão demográfica e ao povoamento de novas terras. A produção per capita continuou estática. Mas tudo isso mudou na era moderna. Em 1500, a produção global de bens e serviços era equivalente a cerca de 250 bilhões de dólares; hoje, gira em torno de 60 trilhões. O que é mais importante, em 1500 a produção per capita anual era, em média, 550 dólares, enquanto hoje, todo homem, mulher e criança, produz em média, 8,8 mil dólares por ano. O que explica esse crescimento estupendo?”.
    (Sapiens - Yuval Harari, p.315)

    A resposta fica clara quando no best seller, Sapiens, de Yuval Harari reserva um capítulo inteiro (16) para explicar o desenvolvimento da sociedade.

    Recomendo a leitura não só deste capítulo, mas do livro em sua integralidade.

    Os argumentos comprovam que o confiar no futuro, a ideia do crédito e a necessidade de acúmulo de capital para investimentos são ideias executadas em tempos modernos, uma vez que antigamente, não se tinha a sensação de que poderia haver confiança no futuro, acreditando-se que a riqueza era limitada.

    O “boom” maior veio no século 18, Adam Smith teria dito em sua mais conhecida obra, A riqueza das nações:
    “Quando um proprietário de terras, um tecelão ou um sapateiro tem mais lucro do que precisa para manter a própria família, ele usa o excedente para empregar mais assistentes a fim de aumentar o seu lucro. Quanto mais lucro tiver, mais assistentes pode empregar. Daí ocorre que um aumento no lucro dos empreendedores privados é a base para o aumento na riqueza e prosperidade coletivas”.

    Acreditar em um mercado sem qualquer interesse político alienado é sim acreditar em Papai Noel, mas acreditar que o Estado com suas leis em sua melhor forma seria a pedra fundamental para o progresso não passa longe.

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  3. 2ª Parte -

    Quando você cita: “poderíamos afirmar que o Estado, ao menos logo no início de sua concepção, tinha a função de garantir minimamente que as pessoas pudessem conviver em harmonia e segurança.”

    A ideia do estado era centralizar o poder, tornar algo individual em coletivo, sendo respeitado através de leis, o que seriam as leis?
    Segundo Bastiat, “É a organização coletiva do direito individual de legítima defesa”. Direitos esses chamados direitos naturais, que são a vida, a liberdade e a propriedade. Então, em essência, o Estado teria por obrigação a ideia de garantir que nenhum desses direitos naturais fossem violados. Sugiro a leitura do livro A Lei, de Frédéric Bastiat, para maior aprofundamento no assunto, mas não precisamos de muito para vermos que as leis estão cada vez mais sendo usadas para espoliação do que proteção.

    Na verdade, acrescentaria que há na discussão a diferença entre lei x legislação. Onde lei é a constatação orgânica das coisas, a ordem espontânea, como as leis da natureza e leis naturais alienadas ao homem. Já legislação, são um bando de burocratas tentando criar uma ordem através de espoliações.

    A pedra fundamental da riqueza das nações é o que chamamos de capitalismo, como expus no primeiro comentário, devemos tomar cuidado para o que seria de fato e o que seria a deturpação do termo.

    Não vejo inúmeros outros fatores para o progresso, uma vez que em milhares de anos a riqueza mundial vinha se mantendo inerte, se não fosse a ideologia capitalista, a ideia de acúmulo de capital, a ideia do livre comércio.

    Os seres humanos são movidos a incentivos, e temos a prova mais fácil de todas, pois sendo uma organização centralizadora de poder, o Estado favorece todos os incentivos de corrupção possível. Temos aqui o pior alocador de recursos possíveis!
    Nesse caso, o conceito de liberdade deve ser explorado! O individualismo não pode sucumbir perante a um coletivismo, o que nos torna “livres” é sermos responsáveis por nossas escolhas (Tendo a possiblidade de escolhas que não venham a ferir a liberdade de outros, os direitos naturais). Veja que não tratamos de egoísmo, sim de individualidade, necessitamos um dos outros, para tudo, desde o fornecimento de algum alimento a alguma ajuda mais básica, isso não significa que não deva ser respeitada a individualidade. Necessitamos uns dos outros, cada um com sua individualidade, em cooperação para um avanço.

    Entraremos em uma discussão filosófica, no ponto da moralidade ou não de uma pessoa pagar por estudos de uma outra, e assim por diante, mas o estado usa de coerção, como sempre fez. Mas o princípio de propriedade e ser livre para consumir ou investir onde você quiser não pode ser violado.

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  4. 3ª Parte -

    Quando você diz: “A questão que me parece ser pouco debatida pelos liberais seria sobre a grande importância da democracia, aqui referida no sentido de criação de igualdade de condições para todos em acesso a educação, saneamento básico e saúde, seja através do Estado, pela Iniciativa Privada ou pelo terceiro setor ou, ainda, pela co-participação desses três”

    1º) A democracia não criará nada sozinha se o empreendedor não tiver campo livre para investimento, seja na educação, saúde, tecnologia, urbanização ou o que for. Se o estado impor taxas, burocracias desnecessárias e outros meios de intervenção, nada anda.

    2º) Não existe almoço grátis, o Estado não da nada. Ele tira de alguém para dar para outro, Estado não gera riqueza, recolhe!

    Resumo: Você possuindo um mercado aberto, sem intervenções ou minimamente interventor, empreendedores de qualquer situação se encarregarão do resto.

    Como já entramos em consenso de que não haveria um capitalismo puro aplicado, ao menos conseguimos chegar a conclusão de que quanto menores as interferências no mercado um país tiver, maior e mais rico ele se torna.

    Basta compararmos o ranking de países mais livres economicamente
    (https://www.heritage.org/index) com os ranking dos países com maior IDH.
    Veremos quem são os países mais desenvolvidos em relação a sua liberdade. Sim, há correlação já comprovada.
    E percebermos que os países com maiores bloqueios econômicos (geralmente países socialistas, ditaduras comunistas e etc) são os países menos desenvolvidos, com grandes índices de guerra civil, problemas com criminalidade, mortalidade infantil, deficiência no ensino e etc.

    Gostaria de acreditar nas inúmeras outras coisas que gerariam a riqueza de determinada nação, mas nenhuma delas sobrevivem sem a aplicação do conceito de livre mercado e propriedade.

    Livros:
    • Sapiens, Yuval Harari
    • A lei, Frédéric Bastiat
    • A mentalidade anticapitalista, Ludwig Von Mises
    • Porque o Brasil é um país atrasado, Luiz Philippe de Orleans Bragança

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    1. PARTE 1

      Victor, grato pelas dicas de leitura. Vou ler todos.

      Seguem breves comentários em cima de seus comentários:

      - "As nações só provaram do progresso, da riqueza, em tempos modernos, contrário à criação de Estados e Leis que surgiram a centenas de anos antes de Cristo em calendário romano."

      - "O “boom” maior veio no século 18, Adam Smith teria dito em sua mais conhecida obra, A riqueza das nações:"

      - "A pedra fundamental da riqueza das nações é o que chamamos de capitalismo, como expus no primeiro comentário, devemos tomar cuidado para o que seria de fato e o que seria a deturpação do termo."

      Coincidência ou não, o "O boom maior veio no século 18", que você mencionou é datado justamente no mesmo contexto histórico do surgimento dos Estados Modernos, que ocorreu justamente com o fim do feudalismo, igual aconteceu com o capitalismo. Será que os Estados Modernos e o capitalismo são irmãos siameses do mesmo contexto histórico-social (descentralização política, livre comércio, revoltas populares etc)?

      Enfim, todo fenômeno social é algo altamente complexo. É com relação ao progresso das grandes nações e da humanidade não seria diferente. Complexo no sentido de que não se deu por um único motivo (unicausal), mas sim por uma série de fatores (multicausal).

      Os acontecimentos históricos foram surgindo (solo) para que, então, a semente (capitalismo) fosse plantada. Ocorre que, sem esse solo (diversos fatores), o sistema capitalista não poderia ter surgido.

      Trata-se de uma confluência de fatores, nos termos utilizados reiteradamente pelo livro "Porque as nações fracassam". Sugestão de leitura já indicada anteriormente.

      - "Os seres humanos são movidos a incentivos, e temos a prova mais fácil de todas, pois sendo uma organização centralizadora de poder, o Estado favorece todos os incentivos de corrupção possível. Temos aqui o pior alocador de recursos possíveis!"

      Não é somente pelo fato de que certo tipo de sociedade corrompe uma ideia que faz com que essa ideia não faça sentido ou seja boa.

      Infelizmente, no Brasil, a ideia por trás do Estado e das Leis são corrompidos em benefício dos próprios governadores, seus amigos e certas classes sociais (de pessoas e empresários, vide Lava Jato). Mas outra coisa é generalizar essa caso ao ponto de afirmar de que as leis e o Estado nunca serviram e não servem para nada, a não se expropriar. Num contexto histórico global, são instituições políticas altamente complexas e responsáveis pela evolução da humanidade, preparando o campo para o surgimento do capitalismo, inclusive.

      O Estado Moderno possui o monopólio da coerção física irresistível, e essa é a forma pela qual as coisas minimamente começaram a funcionar. Do que adianta ter uma livre mercado se não há polícia (ou seja, o Estado) para manter a segurança e as coisas minimamente funcionando? Quer um exemplo concreto, “Semana do bandido” que ocorreu no início de2017 no Estado do Espírito Santo, em que a PMES entrou em greve. Lembra do samba do criolo doido que ficou? Parecia faroeste de filme, terra sem lei, sem ordem.

      Agora, talvez exista certo tipo de confusão acerca dos tipos de Estado (totalitário, de Direito, Democrática de Direito). É claro que somente num Estado Democrático de Direito, o sistema capitalista poderá desenvolver-se. Se esse Estado é mais ou menos liberal, esse fator somente determinará o grau de evolução e da prosperidade da sociedade. Como muito bem demonstra o "ranking de países mais livres economicamente", quanto mais liberar um país for mais desenvolvido será.


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    2. PARTE 2

      - "Gostaria de acreditar nas inúmeras outras coisas que gerariam a riqueza de determinada nação, mas nenhuma delas sobrevivem sem a aplicação do conceito de livre mercado e propriedade."

      Absolutamente, mas com ressalvas. Insisto que seria uma série de fatores que são responsáveis pela prosperidade. Ainda que fosse adotada a sua concepção (de que capitalismo é inicio, meio e fim, e também meio e fim em si mesmo), é certo que esse sistema somente surgiu principalmente na Inglaterra após fim do feudalismo por uma séria de fatores. Foi nesse momento que esse sistema encontrou terreno para florescer e se desenvolver. Essa é a ideia por trás da confluência de fatores que tenho dito.

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