Para muitos, o filme “A Matrix” é
apenas de um filme do gênero ficção científica, sem qualquer outro chamariz
além das excitantes cenas de ação com efeitos especiais até então inimagináveis
para o ano de 1999.
No entanto, a partir de um olhar mais aguçado e profundo, o
expectador perceberá que tratar de verdadeira obra de arte, um especial convite
para reflexão filosófica e ao autoconhecimento.
Uma das cenas mais esclarecedoras é o
primeiro encontro entre o protagonista Neo (novo ou jovem, do grego),
interpretado por Keanu Reeves, e Morpheus (mensageiro dos deuses e da verdade,
pela mitologia grega), interpretado por Laurence Fishburne.
Morphes explica a
Neo que a Matrix: “É o mundo que foi colocado diante de seus olhos para que
você não visse a verdade.” Neo então indaga, “Qual verdade?”. “Que você é um
escravo Neo. Como todos os outros, você nasceu em um cativeiro, nasceu em uma
prisão que não consegue sentir, provar ou tocar. Uma prisão para sua mente”,
conclui Morpheus.
Em seguida Morpheus concede duas opções para Neo: “Se tomar a
pílula azul, a história acaba, e você acordará na sua cama acreditando no que
quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha, ficará no País da Maravilha e eu
te mostrarei o quanto profunda é a toca do coelho.” Neo escolhe a pílula
vermelha.
Depois de alguns eventos, Morpheus
leva Neo a um programa de simulação de realidade para explicá-lo como funciona,
de fato, “A Matrix”. Em meio a uma calçada com dezenas de pessoas, Morpheus
diz: “A Matrix é um sistema Neo. Esse sistema é nosso inimigo. E quando você está lá dentro e olha ao
redor, você vê homens de negócios, professores, advogados, carpinteiros, as
mentes das pessoas que estamos tentando salvar. Mas até fazermos isso, essas
pessoas fazem parte desse sistema. E isso as torna nossos inimigos. Você tem
que entender que a maioria dessas pessoas não estão prontas para serem
desplugadas. E muitos são tão inertes, tão dependentes do sistema que irão
lutar para protegê-lo.”
Nesse momento, enquanto Morpheus
passava a mensagem, Neo se distrai ao visualizar uma linda loira de vestido
vermelho que realmente se destaca em meio a multidão de roupa escura. “Você
está me escutando Neo? Ou está olhando a mulher de vestido vermelho”, Morpheus indaga.
Neo hesita para responder por um momento e, quando retorna o olhar para a linda
mulher, surge o agente Smith apontando-lhe uma arma. Morpheus então pede para
congelar a simulação. O agente é um programa responsável por proteger a Matrix,
o “sistema”.
Agora, convido o leitor a “sair”
brevemente do mundo digital da Matrix e irmos juntos ao mundo considerado “real”.
A mulher de vestido vermelho representa as diversas distrações cotidianas, todas
aquelas formas de escapismo superficial que possa nos distanciar da conexão com
a verdade, com o que realmente interessa.
A velha política do pão e circo,
fanatismo político e religioso e a televisão são alguns exemplos disso. As
distrações e os agentes existentes na atual realidade em que vivemos não são
meras semelhanças. Enfim, é o modo atual de viver de forma superficial. O
leitor pode perceber que Platão já relatava esse fenômeno no Mito da Caverna
produzido no ano 380 a.C.
Afinal, estamos mais preocupados em
conquistar “likes” e “seguidores” nas redes sociais, em sermos famosos, do que sermos
importantes, do que deixarmos um legado de contribuições para o futuro dos que
nos são caros. Mundo digital gera felicidade artificial, efêmera. O mundo real
é o da fome, da miséria, das desigualdades acentuadas, em que o ter predomina
sobre o ser. E o que mais precisamos é sermos fraternos e a humanos.
A depender de nossos próximos passos,
poderemos ser considerados no futuro como “amebas high tech” ou autênticos “homo
sapiens” (homem sábio, do latim). E você caro leitor, como deseja ser
reconhecido pelos seus descendentes em um futuro próximo? Afinal, qual pílula deseja
escolher?
** Agradeço ao meu pai, eterno amigo e conselheiro, Rodrigo Cardoso Freitas, pelas grandiosas considerações sobre o texto.




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