Copa do Mundo de 2018, Distração e Retrocessos


Enquanto a seleção brasileira apresentava seu futebol na Copa do Mundo de 2018 da Rússia, realizado entre 14 de junho a 15 de julho, sobrevieram muitos acontecimentos importantes no Brasil que repercutem na vida de todos nós cidadãos. Muitos deles passaram praticamente despercebidos pela população por um motivo claro: estávamos “em campo” na Rússia ao lado de nossos “ídolos”, acompanhando todos os passos da seleção em busca do tão sonhado “hexa”.

Enquanto isso, a saúde pública, o meio ambiente e os sistemas representativo e democrático da nação também estavam em jogo, mas em “partidas” muito diferentes daquelas da Rússia, nas quais acabaram vingando interesses nada republicanos. Faremos uma breve reflexão sobre apenas dois exemplos bem expressivos, quais sejam: a) aprovação pela Câmara dos Deputados do Projeto de Lei nº 6.299/2002 e b) tentativa frustrada de soltura do ex-presidente Lula, durante um plantão judicial.

O Projeto de Lei nº 6.299/2002 objetiva alterar a legislação vigente que regulamenta a utilização de agrotóxicos. De um lado, os que defendem o projeto, sob o argumento que a atual legislação está desatualizada e que a alteração aumentará a produtividade do setor agrícola. Em oposição, os que entendem que o projeto trará muita flexibilização a utilização desses produtos, provocando maiores riscos a saúde humana e ao meio ambiente.

O fortalecimento do agronegócio brasileiro é de suma importância para o desenvolvimento da nação, sendo imprescindível a atualização da legislação, especialmente para desburocratizar a utilização responsável desses produtos. Contudo, por ser um dos temas mais polêmicos em trâmite no Congresso Nacional, a aprovação desse Projeto de Lei pela Câmara dos Deputados, ocorrido em dia 25 de junho, quando os olhos dos brasileiros estavam voltados para a Rússia, não nós parece nada republicano. A já conhecida política do pão e circo floresceu novamente por parte de parcela da classe política que deveria representar os interesses da população brasileira. 


Em outro cenário, entre os dias 6 e 8 de Junho, ocorreu a tentativa de aproveitar o cenário festivo de copa do mundo, para postular medida judicial que poderia desestabilizar as instituições democráticas. Trata-se do caso envolvendo o Habeas Corpus em favor do ex-presidente Lula, impetrado propositalmente durante o regime de plantão do TRF 4. A empreitada judicial foi considerada, ao menos na forma que ocorreu, uma tentativa de burlar o sistema democrático brasileiro, especialmente pela ausência de fato novo, capaz de justificar a renovação de um pedido já decidido anteriormente. O pedido de liberdade foi concedido no domingo, 08 de julho. Ocorre que os idealizadores da estratégia não contavam com a derrota da seleção brasileira para a Bélgica, muito menos que haveriam decisões contrárias, proferidas ainda no mesmo plantão judiciário.


A derrota da nossa seleção para a Bélgica, certamente, fez com que a população brasileira despertasse para os reais problemas nacionais, tanto que houve, preponderantemente, repulsa social contra a decisão que deferiu a soltura do ex-presidente. Infelizmente, o mesmo não ocorreu em relação à aprovação do Projeto de Lei 6.299/2002, ocorrida ainda durante a grande distração e entretenimento.

No livro “Porque as nações fracassam – as origens do poder, da prosperidade e da pobreza”, Daron Acemoglu e James Robinson afirmam que a prosperidade de uma nação é um fenômeno social altamente complexo, florescendo a partir de uma confluência de fatores, dentre os quais a existência de um sistema democrático, de um Poder Judiciário independente, da participação popular, da garantia de liberdade, educação, tecnologia, propriedade, pluralidade de ideias etc.   
   
A grande lição dos dois acontecimentos aqui mencionados é que o povo brasileiro não pode, independente das circunstâncias ou distrações, “baixar a guarda”, muito menos deixar de fiscalizar ou de lutar pela confluência desses fatores, que consubstanciam os ideais republicanos e democráticos que realmente importam, aqueles que são caros e essenciais para a prosperidade do Brasil, independente de viés ideológico e político.

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Artigo publicado no jornal "A Palavra" de Alegre/ES, na coluna "Reflexões", edição julho/2018.





Foi utilizado como requisitos para evolução no Instituto Jovens Líderes de Aracruz/ES  que tem por objetivo a formação de líderes e empreendedores comprometidos com o contínuo desenvolvimento do Estado do Espírito Santo e do Brasil, a partir de uma proposta desvinculada do sistema de formação tradicional e baseada em princípios liberais.

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