Resenha crítica ao livro "O lado difícil das situações difíceis"


O livro “O lado difícil das situações difíceis – Como construir um negócio quando não existem respostas prontas”, do americano Ben Horowitz, um dos mais respeitados e experientes gestores e empreendedores do Vale do Silício, é uma verdadeira obra prima de suma relevância para empreendedores, gestores de pessoas, diretores executivos e até mesmo para o público geral.

Horowitz é fã de “hip hop”, conhecido como o “guru da gestão”, inovando ao produzir a literatura classificada como totalmente incomum para o mundo de administração, dos negócios e da inovação. São inúmeros conselhos e dicas pragmáticas, com pitadas de diversas letras de “hip hop”, para solução de decisões difíceis que surgem diariamente na condução da empresas, oriundos de sua vasta experiência como cofundador e diretor executivo das empresas Loudcloud e posteriormente Opsware.

Após a venda da Opsware para a Hewlett-Packard no valor de 1,65 bilhão de dólares, Horowiz trabalhou durante um ano na HP, conduzindo grande parte do setor de software desta empresa. Em 2009, Ben Horowitz e Marc Andreessen fundaram a Andreessen Horowitz, renomada firma de investimento de capital de risco, cujo lema é “Software está alimentando o mundo”. Esta empresa possui portfólio incluindo diversas empresas multinacionais, como o Facebook, Skype, Pinterest, Foursquare, Skype, Twitter etc.


Pois bem. O objetivo da presente resenha é de trazer “os melhores momentos” desta obra, e uma breve análise crítica. O título não possui a pretensão de trazer fórmulas mágicas que, se simplesmente aplicadas, serão capazes de solucionar os desafios inerentes a todo e qualquer negócio. O objetivo é de compartilhar experiências que podem servir de inspiração para que outras pessoas possam construir seus próprios negócios.

Proveniente de uma família de comunistas, Horowitz conseguiu superar todos os desafios e alcançar o sucesso. Para tanto, a primeira grande lição de vida que aprendeu ainda quando criança foi a de superar o medo. É preciso criar coragem para superar os desafios, deixando bem claro que o medo é mera ilusão. O ator americano Will Smith trabalha bastante o tema, classificando o medo como uma mera ilusão, e o perigo como algo real. É preciso, portanto, deixar bem claro em mente essa diferença. Ainda nesse estágio inicial de sua vida, a partir de um discurso imemorável de seu técnico de futebol americano - Sr. Chico Mendoza -, Horowitz aprendeu a primeira lição sobre liderança, descrevendo como “a capacidade de fazer alguém seguir você, mesmo que por simples curiosidade”.

Em todos os momentos de nossas vidas, Horowitz defende que precisamos de dois tipos de amigos: a) aquele que ligamos para dizer que algo de bom aconteceu, que simplesmente ficará alegre e animado e b) aquele que ligamos quando as coisas estão à beira do caos. No caso do autor, Bill Campbell é o amigo que se encaixa nesses dois perfis. O momento era delicado, o auge da crise das pontocom que avassalou todo o setor de tecnologia dos EUA no início dos anos 2000. Horowitz não estava conseguindo investimento privado para alavancar a Loudcloud, sendo que a saída foi a abertura de capital.

Quando necessária para salvar o negócio, essa é uma opção que pode ser levada em consideração. Porém, algumas medidas devem ser adotadas para evitar mal estar entre os colaboradores, prejudicando ainda mais o negócio. A saída adotada por Horowitz foi a realização de uma confraternização com todos os colaboradores, deixando bem claro que a única ferramenta para a sobrevivência da empresa seria Wall Street, solicitando a transparência de todos para fazerem suas escolhas, entre permanecer ou sair da empresa. Apenas 2 funcionários pediram demissão. Os demais 78 permaneceram até a venda da empresa, 5 anos depois, para a Hewlett-Packard, na fortuna de 1,65 bilhão de dólares.

Ainda na condução da Loudcloud e Opsware, Horowitz chegou na conclusão que não há segredo para ser um Diretor Executivo bem-sucedido. Existe somente uma habilidade. Diante de um grande desafio, o sujeito deve ter a habilidade de concentrar e formular a melhor decisão possível, mesmo quando não há possibilidade de se adotar uma boa decisão. Nesse cenário, é preciso aplicar o princípio do Bushidô (“Caminho do Guerreiro” em tradução livre), código de conduta da cultura samurai: “tenha a morte sempre em mente”.

Do planejamento do negócio, execução e o sucesso, a luta sempre existirá. Durante esse percurso muitos desistem, por não serem fortes o suficiente. Portanto, é preciso ter em mente que “é na luta que nasce a grandeza”, nas palavras de Horowitz. Daí surgem 5 princípios que podem ajudar: a) “não carregue todo o peso sozinho”: é preciso compartilhar os problemas para o maior quantidade possível de cérebros solucioná-los; b)  “não estamos jogando damas, estamos jogando xadrez”: a tecnologia é altamente complexa e está em constante mutação. As empresas de tecnologia, portanto, deve sempre estar atenta a uma jogada adiante; c) “se você jogar por tempo suficiente, é possível que tenha sorte”: o fator sorte é maleável. Quando maior a persistência, maior será a probabilidade de êxito; d) “não leve para o lado pessoal”: erros acontecem e devem ser superados e, por fim, e) “lembre-se de que é isso que distingue os adultos das crianças”: Se deseja o sucesso e a grandeza, terás desafios. Caso contrário, não faz sentido abrir uma empresa.

Como dito, ao longo de sua carreira, Horowitz exerceu o cargo de Diretor Executivo, adquirindo larga experiência que compartilhou no livro. O Diretor Executivo não pode maquiar a verdade, pelo simples fato de estar lidando com o dinheiro de terceiros. Também não deve se iludir com a positividade, por mais sedutora que seja. Os desafios da empresa devem estar bem claros para se manter a confiança entre todos os envolvidos, para que os melhores cérebros possam tomar conhecimento e tentar solucioná-los ou ao menos contribuir com a solução. Isso favorecerá a manutenção da cultura da empresa.

Em momento de crises financeiras, muitas vezes as demissões coletivas são inevitáveis. Esse é um dos maiores obstáculos de qualquer empresa. A grande questão é que essas demissões é um risco a cultura empresarial, podendo provocar a falência de empresas e de startups. Para evitar isso, Horowitz lista 6 pontos cruciais: “ponha a cabeça no lugar”, “não demore”, “tenha claro para si mesmo por que você está demitindo o pessoal”, “treine os gerentes”, “fale com toda a empresa” e “seja visível, esteja presente”.

A criação de um bom ambiente de trabalho é essencial para a criação de cultura empresarial e, principalmente, para o sucesso do negócio. Daí surge a lição compartilhada por Horowitz, que aprendeu com Jeff Barksdale, seu antigo chefe: “Nós cuidamos das pessoas, dos produtos e dos lucros – nesta ordem”. Cumprindo a primeira tarefa, metade do caminho estará concluído, aumentando a probabilidade de êxito. “Se a sua empresa for um bom lugar para trabalhar, é possível que ela dure o suficiente para que você alcance a glória”, afirma o autor.

No ramo de tecnologia, o ativo mais valioso são os colaboradores (e não somente nesse ramo). Assim, a motivação e o treinamento são essenciais para aumentar a lucratividade e a retenção de talentos. Não necessariamente pessoas inteligentes serão bons colaboradores. É preciso pessoas com sagacidade e que trabalhem duro. Colaboradores que tenham por objetivo engrandecer e crescer conjuntamente com a empresa (engajamento e cultura empresarial).

Existem alguns aspectos tratados por Ben Horowitz que possuem muita similaridade com as lições trabalhadas no livro “De zero a um - o que aprender sobre o empreendedorismo com o Vale do Silício” de Peter Thiel. Podemos listas as seguintes: a) empresas que logram êxito em criar monopólio de mercado por ser extremamente inovadora em seu ramo de atuação (monopólio não no sentido pejorativo, mas de criatividade/mérito), como o Google, conseguem focar em outras áreas. Esse deve ser o objetivo de toda startup de tecnologia; e b) o grande desafio é sempre continuar competitivo, mesmo diante do monopólio de mercado. Caso contrário, o fracasso começará a aparecer no fim do túnel.

Por fim, duas curiosas lições exploradas na obra são de suma importância. A primeira é a técnica do “sanduíche de merda”. O feedback será melhor recepcionado pelas pessoas quando primeiro recebem um elogia (primeira fatia de pão), depois é comunicada a mensagem desafiadora (merda) e, por fim, é lembrada quando é estimada por suas qualidades (segunda fatia de pão). A segunda ideia é a “técnica de gestão da sexta-feira muita louca”. Quando dois grupos essenciais de uma empresa declaram guerra entre si, prejudicando a cultura empresarial e a produtividade, cabe ao Diretor Executivo estabelecer que nas sextas-feiras cada grupo fará as atribuições do outro. Essa foi a opção adotada pelo autor e que, em apenas uma semana, já surtiu efeitos positivos.

Em conclusão, a mensagem da obra é de deixar bem claro que o sucesso de qualquer negócio depende de resiliência, tempo e de trabalho duro. O sucesso é um caminho extremamente árduo em que não existem soluções prontas para desafios altamente complexos. Diante desse cenário, a grande lição compartilhada por Ben Horowitz é que, no empreendedorismo, é necessário abraçar a luta. Ou melhor, é precisar casar com a luta.

O título da obra ou a especificidade do tema aparentemente restringe o público alvo da obra analisada ou assusta o eventual leitor. Porém, a riqueza de detalhes e de experiências compartilhadas por Ben Horowitz certamente contribuirá independentemente da profissão do leitor. Leitura obrigatória.

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