"Adam Smith precisa ser revisado" e o Equilíbrio de Nash



Em 2001 o mundo não científico conheceu, através do lançamento do filme “Uma mente brilhante”, parte da história do gênio matemático John Forbes Nash Jr., ganhador do prêmio Nobel de Economia em 1994, conjuntamente com Reinhard S. e John H., pelos estudos na Teoria dos Jogos. 


Em uma das cenas mais conhecidas do filme, Nash, interpretado por Russell Crowe, e quatro outros amigos estavam em um bar, quando avistaram uma linda loira, que também estava acompanhada por outras amigas. Todos os amigos imediatamente apresentaram interesse em conquistar a loira.





No contexto de quem iria se apressar e conquistar a loira primeiro, um dos amigos diz: “De acordo com Adam Smith, o pai da economia moderna. Em um ambiente competitivo, as ambições individuais servem ao bem comum“. “Cada homem por si só, cavalheiros”, outro amigo finaliza. 




Daí surge o “insight” de Nash: “Adam Smith precisa ser revisado”. E completa: “Se todos nós fôssemos a loira, bloquearíamos uns aos outros. E nenhum de nós a teria. Então vamos para as amigas dela. Mas elas irão nos rejeitar já que ninguém gosta de ser a segunda opção. E se ninguém for atrás da loira? Não atrapalhamos nossos caminhos e não destratamos as outras garotas. É única maneira de vencermos. É o único jeito de todos nós irmos para a cama”. Conclui: “O melhor resultado acontecerá quando. Quando todos em um grupo fizerem o que é melhor para si e para o grupo”. Aqui está o “Equilíbrio de Nash”. 





Duzentos e setenta e oitos anos antes do lançamento desse filme, nasce Adam Smith, filósofo e economista britânico, no contexto histórico-social do “Século das Luzes”, predomínio da razão sob os dogmas até então inquestionáveis da Igreja Católica. Smith é considerado o mais importante teórico do liberalismo econômico, tendo criado idéias revolucionarias que provocaram a riqueza das nações (“mão invisível”, próprio interesse, não intervenção estatal na economia). 

Para essa teoria, o individualismo do sujeito gera prosperidade, na medida em que cada um trabalha da melhor forma possível em sua atividade comercial para valorizar aquilo que faz, com único intuito de obter riqueza, provocando o avanço tecnológico e a baixa do custo de produção, com a consequente baixa e controle dos preços. Tal ideia ficou registrada na história pela seguinte frase de Smith: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses.” Essa é a ideia adotada por grande parte dos sujeitos inseridos no sistema capitalista. 


Ocorre que toda ideia, por mais brilhante que seja, também pode provocar efeitos inversos a seus propósitos iniciais ao longo do tempo. O pensamento de Smith é valioso para o crescimento econômico, tendo sido fundamental para a sua época, já que fomentou, de uma maneira importante na ocasião, a ambição dos negócios sem o sentimento de culpa. Contudo, apesar da valorização do interesse privado e econômico, não é possível menosprezar o espírito de fraternidade, que inspira a responsabilidade social, econômica e política, ao menos na atualidade.



A aplicação do pensamento de Smith sem a percepção da realidade social, certamente leva ao abuso do direito, à irresponsabilidade social, ambiental, moral etc. 





Adotando o pensamento segundo uma perspectiva atual, não individualista, voltada para o desenvolvimento responsável e sustentável, certamente teremos desenvolvimento consciente do papel que temos uns com os outros e com relação as futuras gerações, marcado por uma competitividade saudável, essencial para o avanço da sociedade. Surge aí a originalidade do “Equilíbrio de Nash”.


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* O presente artigo é uma "segunda versão" do artigo denominado "Adam Smith estava errado e o Equilíbrio de Nash", de minha autoria, e publicado neste blog em 19-11-2014. 

http://memoriasreflexoes.blogspot.com.br/2014/11/adam-smith-estava-errado-e-o-equilibrio.html

** Agradeço ao meu pai, eterno amigo e conselheiro, Rodrigo Cardoso Freitas, pelas grandiosas considerações sobre o texto. Agradeço também a Marcos Severo e Thiago Pagung pelas anotações.

Comentários

  1. É evidente que o pensamento de Adam Smith, em suma, leva ao total "cada um por si", que na verdade não interfere somente a relação de mercado, o que é bastante perigoso!

    É verdade também, que o Estado deve se controlar para não chegar ao Paternalismo, mas sua atividade é importante para trazer uma seguridade social e trazer o menor desequilíbrio possível.

    Teorias à parte, o neoliberalismo já está velho e a tão famosa frase "o homem é o lobo do homem" de HOBBES prevalece novamente.

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    1. O artigo visa apenas trazer um viés de maior responsabilidade para todos os atores do sistema capitalista. Trazer à tona que, nem sempre a busca por lucro, provoca necessariamente os melhores efeitos. As questões morais e ambientais talvez seja mais fáceis de visualização.

      Neoliberalismo não existe, a bem da verdade.

      Trata-se apenas uma atualização dos padrões de intervencionismo estatal na economia de mercado.

      Nesse sentido, recomento a leitura do artigo "O conceito de neoliberalismo", disponível no site do Mises Brasil:

      https://mises.org.br/Article.aspx?id=835

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  2. “Nash precisa ser revisado”

    O cenário para o “insight” de Nash não é nem de longe comparado com a competição sugerida por Adam Smith. Em primeiro lugar, Adam Smith além de defender a livre concorrência de mercado nas Riquezas das Nações (1776), também defende a Filosofia Moral e Natureza do Homem na Teoria dos Sentimentos Morais (1759), onde a filosofia moral é definida pela simpatia e empatia, a interconexão emocional que sentimos por outros seres humanos, onde sim, faríamos decisões baseados primeiramente em interesse social, mas sob a teoria do expectador, onde estaríamos a todo momento julgando uma ação seja própria ou externa através do que seria mais justo.

    “De acordo com Adam Smith, o pai da economia moderna. Em um ambiente competitivo, as ambições individuais servem ao bem comum”. O problema maior é confundir ambição individual com egoísmo. Todos devemos respeitar e possuir individualidades, assim como necessitamos da individualidade do próximo, seja para termos serviços básicos a situações mais complexas.

    Interpretar uma frase de Adam Smith e tentar limita-la a “cada um por si” é caminhar por uma estreita faixa entre desonestidade ou desinformação! Ou se tenta refutar a qualquer custo sem sentido ou não se teve conhecimento algum das obras do autor!

    A teoria dos jogos é muito bem vista, no âmbito do direito se aplica melhor ainda! Se tratando do exemplo proposto no filme, como dito, não tem cabimento. A riqueza é algo constantemente criado, de forma alguma esta limitada e apenas distribuída como pensam os Socialistas. A riqueza não é um jogo de soma zero, uma vez que durante todo o processo de produção de bens e serviços estamos gerando riqueza, seja quando investigamos como converter coisas em bens, quando de fato convertemos as coisas em bens, e quando distribuímos os bens por meio das trocas comerciais, etc.

    O “insight” trata de um “bem escasso”, eles estão falando de uma mulher que só existe a única ali (pelo menos a única que atraiu o popular), ela nesse contexto é um “bem escasso”. Se eu seguro uma caneta, você não pode possui-la porque a caneta que esta na minha mão é escassa. Compreendem o abismo entre Riqueza x Produto Escasso?

    Em uma competição - que nunca deve ser lida como pejorativa e sim como saudável e longe de coerções e incentivos ilícitos – as empresas estão atrás da geração de riqueza. De forma alguma uma pode atrapalhar a outra onde não há riqueza escassa. Recursos minerais e etc não são riquezas até que trabalhadas, o fundador da Escola Austríaca de economia, Carl Menger, deixou claro que, para que uma coisa possa ser considerada um bem econômico, quatro circunstâncias devem ser observadas: 1) deve existir uma necessidade humana; 2) a coisa em questão deve ser capaz de satisfazer essa necessidade humana; 3) o indivíduo deve conhecer a adequabilidade da coisa em satisfazer sua necessidade; e 4) o indivíduo deve usufruir poder de disposição sobre esta coisa.

    Nash bebeu da fonte dos conceitos de Adam Smith, de forma alguma ele foi “revisado” ou esteve “incompleto”, quanto menos “estava errado”. Além disso, a ideia de empatia de Smith é muito mais sensata que a ideia de cooperação de Nash, todos sabem o que acontecem quando empresas cooperam, o nome disso é Cartel!

    Quanto ao comentário do Gabriel. Aconselho que leia as obras de Adam Smith, é de total ingenuidade tentar resumi-lo em “cada um por si”. Segundo, o Estado jamais vai se controlar para evitar nada, algo com tanto poder não abdicaria disso, além de que o seu próprio tamanho é a criação do desequilíbrio. Terceiro, fica a minha curiosidade para o termo “neoliberalismo”, gostaria de saber o criador disso, uma vez que o prefixo “neo” significa novo, e até onde sei, liberalismo é o mesmo e prega as mesmas coisas desde então, quanto a estar “velho”, acho que ninguém iria sugerir ignorar as leis de Newton por estarem “velhas”. “O homem é o lobo do homem”, amigo, o ser humano responde a incentivos, sejam eles bons ou ruins, se eles forem de alta recompensa e baixa punição, ele o fará!

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  3. Em nenhum momento o artigo delimita as ideias de Adam Smith a "cada um por si" ou que ganância é sinônimo de egoísmo ou ambição. Talvez tenha visto isso a partir da leitura de outro artigo, ou comentário, vídeo etc.

    A sagacidade do artigo é simplesmente a seguinte: Em um ambiente competitivo, nem sempre a busca pelas ambições individuais, com a minimização de custos de produção e consequente aumento do lucro, aumentando o grau de empregabilidade etc, gera a prosperidade para todos. Em outras palavras, o artigo busca apenas oxigenar a responsabilidade em ambiente competitivos, tais como ocorre em livres mercados.

    Podem e ocorrem distorções a essa regra (que a busca pelo interesse individual gera prosperidade para todo em uma cadeia de eventos). Isso é mais perceptível envolvendo questões ambientais, morais, competitividade por empregos ou cargos em instituições privadas, a todo e qualquer custo.

    Igualar o “Equilíbrio de Nash” a cartel entre empresas é pura ignorância. Se responsabilidade for sinônimo de cartel devemos desistirmos da vida e vamos todos curtir a vida, estilo Woodstock. Duas uma: a) não compreendeu a ideia ou b) não quer, deliberadamente, compreender a ideia. Reitero, trata-se apenas de trazer a tona responsabilidade em todos seus escopos nas práticas competitivas (ambiental, moral, para com as próximas 200 gerações).

    Por outro lado, dizer que o “Equilíbrio...” somente é aplicável ao Direito também é ignorância, com requintes de crueldade. Na economia, por exemplo, o “Equilíbrio...” serve para estudar as possibilidades de ações da concorrência a partir de certa possível reação, como em um jogo de xadrez. Não há cartel ou qualquer coisa do tipo. Trata-se de apenas estratégia matemática pessoal (e não combinada com os Russos) aplicada ao mercado.

    A Teoria dos Jogos possui base matemática, mas é amplamente aplicada na ciência Econômica, tanto é que Nash ganhou prêmio Nobel de Economia em 1994. Se sua Teoria não fosse aplicada a ciência econômica devemos notificar imediatamente o Banco Central da Suécia para retificar o equívoco.

    Aliás, a economia é um dos pais da Teoria dos Jogos, que posteriormente surgiu o “Equilíbrio de Nash”. Nash bebeu das águas da Escola Austríaca de Economia, na medida em que foi orientado por Bert. Hoselitz, discípulo de Ludwing Von Mises. É exatamente dessas águas que surgiu o “Equilíbrio...”.

    A propósito, sugiro leitura do artigo “Jonh Nash e os austríacos”, publicado no Mises Brasil. Link: https://mises.org.br/Article.aspx?id=2102.

    O “Equilíbrio” não é somente aplicável ao direito e a Economia, mas também a Guerra, Eleições. Seguem breves exemplos que podem ser melhor pesquisados posteriormente:

    - Direito: Dilema do prisioneiro...

    - Economia: Análise comportamental (o próprio Prêmio); Posto de gasolina e a guerra dos preços

    - Guerra: Dizem que os EUA não entraram em conflito direito com a União Soviética durante a Guerra Fria ao analisar, dentre outros estudos e circunstâncias, a Teoria dos Jogos. Jogo Gavião – Pomba.

    - Eleições: “O equilíbrio de Nash é evidenciado quando os candidatos passam suas campanhas apresentando somente propostas de governo sem denegrirem a imagem um do outro”. Fonte: http://mameconomia.com/2016/10/25/a-teoria-dos-jogos-e-o-equilibrio-de-nash-aplicados-as-eleicoes/

    - Relações interpessoais: Guerra dos sexos

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  4. Talvez eu tenha me expressado errado ou fui mal interpretado, mas sendo qualquer uma das duas, vamos lá.

    A crítica sobre a resenha não esta no corpo ou na história de vida e feito do personagem, está na cena do filme tomada como base. E elaborando melhor meu primeiro comentário: As análises da Teoria, juntamente com o próprio criador, foram feitas em relação a cena do filme! Minha discordância está na cena.

    A cena em si, diante do que expus, para mim, não faz sentido nenhum a comparação que o rapaz usa para citar Adam Smith, e não fazendo sentido algum, também fica nexo “refutar” algo que já está sendo usado em um contexto que não cabe. Entende?

    Não sei se a cena em questão foi feita pela direção do filme com alguma intenção de menosprezar as ideias liberais (O que ocorre comumente em diversas mídias) ou simplesmente foi feita sem maiores expectativas. A ideia é que, o uso de Smith na situação e sua posterior “refutação” não foram aplicadas no melhor exemplo possível.

    Caso a cena tenha ocorrido de fato, juntamente com o insight da mesma forma que contada. Nash conseguiu ter uma brilhante percepção de algo a partir de um belo erro de comparações de seu amigo no bar (conforme expliquei no primeiro comentário).

    Explicado isso, vou me ater a responder pontualmente suas considerações, como disse, a crítica esta na cena do filme, não no autor.

    Enumerando:

    1) “em nenhum momento o artigo delimita as ideias de Adam Smith a "cada um por si" ou que ganância é sinônimo de egoísmo ou ambição.” Perdão, de fato acabei juntando parte da cena do filme onde o amigo diz “cada um por si”, com o comentário do amigo em cima e onde tu fala: “..não é possível menosprezar o espírito de fraternidade, que inspira a responsabilidade social, econômica e política, ao menos na atualidade.”. A ideia de citar a obra Teoria dos Sentimentos Morais é justamente por Smith ter percebido que a cooperação é mais eficaz quando você recebe algo em troca, quando tu prática algo que te beneficie, não se basear puramente na espera de compaixão do próximo.

    2) “Igualar o “Equilíbrio de Nash” a cartel entre empresas é pura ignorância..”. Talvez me expressei mal, mas não igualei a teoria, comparei a cena do filme onde ele cita que a cooperação entre eles na “competição” pela moça, seria melhor do que a competição livre defendida por Smith em si, neste caso, volta a ideia de que o insight no filme não faz sentido.

    3) “..dizer que o “Equilíbrio...” somente é aplicável ao Direito também é ignorância, com requintes de crueldade.” Bom, não disse isso, eu disse: “A teoria dos jogos é muito bem vista, no âmbito do direito se aplica melhor ainda!”. Disse ser muito bem vista, vírgula, no âmbito do direito melhor ainda. Mas em nenhum momento disse que é “somente aplicável em..”. Na verdade, até completei dizendo: “Se tratando do exemplo proposto no filme, como dito, não tem cabimento.”

    4) “Se sua Teoria não fosse aplicada a ciência econômica devemos notificar imediatamente o Banco Central da Suécia para retificar o equívoco.”. Não lembro de ter dito que não era aplicada no âmbito econômico, disse não ser aplicada no contexto do filme.

    5) “Nash bebeu das águas da Escola Austríaca de Economia, na medida em que foi orientado por Bert. Hoselitz, discípulo de Ludwing Von Mises. É exatamente dessas águas que surgiu o “Equilíbrio...”. Bom, Carl Menger bebeu da água de Smith, assim como posteriormente ideias foram sendo ajustadas e melhoradas, Smith nunca foi perfeito, mas como disse, o contexto da cena não cabe.

    6) “O “Equilíbrio” não é somente aplicável ao direito e a Economia..”. Volto a dizer que não disse que era somente aplicado em algum lugar, mas agradeço a explanação das opções.

    Concluindo e reiterando, a crítica não esta na Teoria ou no criador dela, esta simplesmente em uma cena onde não cabe comparar Adam Smith, muito menos “refuta-lo” se parte de sua teoria se deve ao mesmo. Para melhorar a discussão: A cena do filme precisa ser revisada!

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