Resenha do livro "De zero a um - o que aprender sobre empreendedorismo com o Vale do Silício"




A obra “De zero a um – o que aprender sobre empreendedorismo com o Vale do Silício” é de autoria de Peter Thiel, empreendedor, empresário e investidor de risco americano. Peter é cofundador da PayPal, ao lado de gênios como Elon Musk (Tesla Motors, SpaceX, Solar City), Reid Hoffman (LinkdIn), Steve Chen, Chad Hurley e Jawed Karim (You Tube) e outros, que juntos formaram uma equipe de peso da PayPal, conhecida no Vale do Silício como “Máfia do PayPal”.



Peter Thiel é cofundador da Palantir Technologies, empresa americana gigante do ramo de segurança tecnológica, prestadora de serviço para agências estatais de segurança norte americanas e instituições privadas.





Pois bem. A obra objeto de análise da presente resenha crítica traz uma singular abordagem do Autor que, diga-se de passagem, é um brilhante visionário e bem sucedido, pupilo do Vale do Silício (maior pólo mundial de inovação), a respeito do planejamento, criação e administração de startups no ramo da tecnologia.

A respeito do título da obra, zero representa negócios que não trazem consigo qualquer inovação, criação singular que o destaque do que já existe no mundo. Negócio zero é aquele que simplesmente copia o que já existe no mercado, ainda que faça simples modificações ou adaptações que, no fundo, não muda o que já existe disponível no mercado. É que o exatamente as empresas chinesas fazem ao copiar as ideias criadas no lado ocidental da Terra. Não há criação, apenas copias. Essa natureza de negócio traz um progresso horizontal ou extensivo, isto é, pode até gerar riqueza, mas nada fora da curva.

Por outro lado, o progresso vertical ocorre quando o negócio contém uma inovação tecnológica tão inédita que é capaz de gerar um monopólio de mercado.  Esse tipo de negócio é colossal ao ponto de gerar uma revolução na vida das pessoas, com altíssima margem de lucro para os fundadores, acionistas e investidores. Nesse cenário, o progresso vai de zero a um. A “Apple” (Steve Jobs), a “Tesla Motors” (Elon Musk) e o “Twitter” são exemplos desses tipos de negócios. Somente a tecnologia é de provocar progresso duradouro, capaz de gerar grandes fortunas e de melhorar a vida das pessoas.














Esses tipos de negócios são altamente lucrativos, enquanto os negócios horizontais comumente não o são. É o caso do transporte de aviação civil que o Autor apresenta. Em uma análise superficial, tem-se a impressão ser um negócio altamente lucrativo (37 centavos de dólares por passageiro/viagem), mas não é. Ao menos se comparado com empresas do ramo tecnológico. A “Google” vale três vezes mais que todas as empresas da aviação americana juntas. Isso porque a margem de lucro da aviação é curta, ao passo que o lucro das gigantes em tecnologia é alargado. Empresas no ramo jornalístico também são assim. O “Twiter” é muitas vezes mais valioso do que o jornal “Times”.

O sentido de monopólio que o negócio considerado como “um” abordado pela obra não é aquele que vem em nossa mente. O monopólio que toda startup inovadora deve buscar é aquele que traz um produto, uma ideia tão inovadora que não existe concorrência. A originalidade do produto é tamanha que se distância de tudo que já existe no mercado. Repita-se, monopólio aqui nada ter haver com aquela conduta criminosa que Nações não liberais (exemplo, Brasil) ou empresas privadas praticam. O monopólio discutido na obra é aquele provocado pela genialidade e trabalho duro, e não por corrupção ou algo do gênero.

A obra derruba a usual concepção de que, nos negócios, a concorrência é algo natural e até mesmo aceitável. Para sair do “zero a um” é preciso planejar um negócio que seja inovador ao ponto de inexistir concorrência (denominado “monopólio criativo”). Deve-se evitar ao máximo a concorrência. Em um ambiente competitivo, a batalha diária traz muito mais malefícios do que benefícios, resultando em um negócio voltado a sobrevivência, e não na concentração de melhorias na produção e na venda do “o produto”. A “Google”, por exemplo, foi sagaz ao monopolizar tanto o seu nicho de mercado que pôde focar em outros ramos de atuação, como a publicidade, carros autônomos, inteligência artificial etc.

Ocorre que, a dinâmica do mundo é altamente sagaz. Mesmo uma empresa que constitui um monopólio está fadada ao fracasso caso não seja possível inovar e produzir coisas novas. A “Apple” passou (e muito) a “Google” e a “Microsoft” porque sempre se dedicou a inovação, trazendo produtos novos e com altíssima qualidade aos padrões de mercado (por mais que os preços também reflitam isso), conquistando uma enorme clientela mundial. Enquanto isso, por anos a fio a “Google” e a “Microsoft” dedicaram-se ao ambiente belicoso dos negócios travado entre si, dando margem para a “Apple” chegar com tudo e ultrapassá-las.

Desse contexto surge uma nova grandiosa lição, no mundo dos negócios, além da concorrência, deve-se evitar ao máximo o ambiente belicoso, de tensão e rivalidade com possíveis concorrentes. A comparação dos negócios a guerra é equivocada na visão do Autor, porque deve-se evitar a todo custo a tensão. Ler obras de Sun Tzu (“A arte da guerra) e Clausewitz (“Da guerra”) não é a chave para o sucesso na arte dos negócios de sucesso (categoria “um”). O Autor defende que Shakespeare (“Romeu e Julieta”) é muito mais valioso na medida em que, em uma luta, perder-se de vista o real propósito de todo o resto e da própria luta no final das contas. O importante não é concentrar-se nos rivais, mas no aprimoramento do produto, nas vendas e na satisfaça dos clientes. O negócio que foca grande parte da energia de seus colaboradores na concorrência muito provavelmente resultará em fracasso, ao passo que o inverso também é verdadeiro.



Quando dois ou mais negócios tem objetivo comum se encontram, existem duas opções: a) partir para a guerra ou b) talvez a fusão seja uma boa opção. Como dito, a guerra normalmente resulta em falência. Nesse quesito a obra traz o emblemático caso de rivalidade envolvendo Larry Elisson (“Oracle”) e Tom Siebel (“Siebel”) durante a segunda metade da década de 90 em que ambos focaram na destruição do outro, deixando de lado seus respectivos negócios. Como em qualquer guerra, não há ganhadores.

Insistir em um negócio que existe forte concorrência somente vale a pena caso se tenha “o segredo”, que é a inovação com planejamento estratégico. Caso não tenha o segredo guardado na manga e não seja possível derrotar a concorrência, talvez a fusão seja uma boa saída. Foi nesse ideal que o Autor narra quando vez a fusão de sua empresa “PayPal” com a “X.com” de Elon Musk em 2000, ou seja, em plena bolha das pontocom. A união gerou lucros, muitos lucros. 

 
Não apenas negócios que inovam e criam uma ideia originária são tidos como “um”. Aqueles negócios que melhoram radicalmente uma situação, trazendo uma solução até então inexistente, também são considerados como de ir de “zero a um”. É o caso da “PayPal” e da “Amazon”. Quanto a “Amazon”, apesar de nunca ter armazenado um único livro, é considerada uma das maiores livrarias do mundo (verdadeira intermediadora entre editoras e consumidores). Após atingir tal façanha, expandiu seu negócio de venda eletrônica para cada vez mais produtos pelo mundo. Hoje em dia é a maior empresa de venda online de produtos no globo.

Para desmistificar ainda mais o conceito a respeito da concorrência, o Autor apresenta outra inovadora ideia ao defender que, por ser o acúmulo de capital o pilar do sistema capitalista, a concorrência seria o oposto desse sistema. Assim, o capitalismo e concorrência são tidos como opostos. Deve-se evitar ao máximo a concorrência no ramo dos negócios para garantir maiores margens de lucro e acúmulo de capital. Daí surge a importância na criação de um produto diferenciado, inovador, pois somente no monopólio criativo (e não no monopólio perfeito) é possível o negócio ter valor duradouro, pelo máximo de tempo possível.

Assim como em todos os ramos da vida e do convívio em sociedade, inclusive o ambiente dos negócios, é extremamente natural que poucas pessoas tenham grandes sucessos e muitas levem uma vida comum. Essa é uma realidade defendida pelo Autor com base no “princípio do Pareto”, de autoria economista Vilfredo Pareto. Quanto antes possível o empreendedor tenha isso em mente, maiores serão as probabilidades de se criar um negócio com grande potencial.

Isso porque, quando a esmagadora maioria das pessoas interpreta certa situação como de impossível solução, somente aquele sujeito diferenciado que estuda arduamente, planeja e trabalha duro começa a procurar e pode achar a solução, o segredo (anteriormente descrito). Somente quem procura o segredo, pode eventualmente achá-lo. O segredo é a solução que ninguém mais está procurando. E muitos segredos estão aí para ser desvendados. É o mais importante de tudo é saber proteger esse segredo da melhor forma possível, compartilhá-lo somente com as pessoas certas e nos momentos adequados.

Outra grande lição abordada diz respeito a relação entre homem X máquinas. Muito tem se afirmado que elas irão nos substituir em breve. Esse pensamento não reflete o futuro. Máquinas nunca substituirão o homem. O futuro é a complementaridade do homem e as máquinas, por mais modernas possam ser.


Em apertada síntese, a nosso ver esses são os “melhores momentos” dessa brilhante obra de empreendedorismo focado no ramo tecnológico. Logicamente que todas essas ideias são provenientes de uma mente brilhante e totalmente fora da curva do autor Peter, cria do Vale do Silício. Nesse sentido, o leitor brasileiro deverá adotar toda a cautela necessária, haja vista que a realidade brasileira é totalmente diversa da americana. De todo modo, as lições são extremamente válidas e os empreendedores brasileiros são igualmente capazes de produzir novas ideias e tecnologias capazes de melhorar o mundo, apesar de todas adversidades. Afinal de contas, “você quer ficar o resto da sua vida vendendo água com açúcar ou você quer um chance de mudar o mundo?”, Steve Jobs.



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