Resenha crítica ao documentário "Poverty, Inc" (Pobreza SA)


O documentário “Poverty, Inc – Fighting poverty is big busines. But who profits the most” (“Pobreza SA - Combater a pobreza é um grande negócio. Mas quem lucra mais?”, em tradução livre) possui 94 minutos de duração, produzido em 2014 sobre direção de Michael Matheson Miller. Foram 4 anos de filmagens em 20 países, somando mais de 150 entrevistas. 

Trabalha sobre a perspectiva do lado oculto do complexo global de ajuda humanitária, demonstrando os efeitos colaterais produzidos por esse sistema que muitos sequer sonham em saber. Em apertada síntese, a ajuda humanitária, em alguns casos e sem o devido critério e responsabilidade, provoca a manutenção da pobreza e da miséria. O documentário retira o telespectador da zona de conforto, destruindo, ideia por ideia, a usual crença de que sempre uma boa ação, como a ajuda humanitária, necessariamente produz efeitos benéficos. A história e a realidade demonstram o contrário.


O paternalista é a grande ideia por trás do vigente complexo de humanitarismo. Esse termo diz respeito a maneira pela qual certo sujeito, também conhecido como patriarca, exerce sua influência e/ou autoridade sobre outro sujeito ou grupo de sujeitos. Essa ideia em movimento provoca uma espécie de dependência “química” e “psíquica” da pessoa ou no grupo de pessoas que sofre a influência paternal. Cria-se, assim, a cultura de que não é possível “andar pelas próprias pernas”. Essa é a tradicional visão sobre os países em extrema pobreza.

A bem da verdade, a ajuda humanitária, por si só, traz consigo a ideia de paternalismo. A usual concepção é a de que países do continente africano e os africanos, por tabela, não são capazes de promover seu próprio desenvolvimento como os países e os cidadãos do “primeiro mundo”. Em razão desse cenário, seria necessário criar uma ação (sistema global de ajuda humanitária) para sanar a anomalia da pobreza.

Sob a perspectiva sociológica de Émile Durkheim, o documentário explora a ideia de “fato social”, que consiste no conjunto de condutas ou maneiras de pensar, interpretar, agir e de sentir que exercem influência sobre os sujeitos, compelindo-os a agir de acordo as regras sociais pré estabelecidas. Nessa concepção, a ajuda humanitária é bem vista socialmente, de modo que todos se sentem “compelidos” a também praticá-la. Nessa linha de pensamento, muitas pessoas bem intencionadas praticam a ajuda humanitária objetivando, obviamente, ajudar o próximo. 

No entanto, o documentário comprova que essas práticas humanitárias geralmente provocam exatamente o efeito inverso desejado, qual seja, a manutenção da pobreza. Essa ideia, a princípio, não faz o menor sentido. Afinal, como que a doação de ovos, por exemplo, para uma comunidade carente pode causar efeitos maléficos?



Para melhor compreender esse fenômeno, veja-se o exemplo do produtor de ovos de Ruanda. Empreender por si só é um grande desafio, contumaz em um país de extrema pobreza como a Ruanda. Ainda assim, um sujeito conseguiu implementar um negócio de produção de ovos, comercializando-os no mercado, gerando emprego e renda para a população local. 

Do outro lado do continente, uma igreja americana com boas intenções decidiu ajudar os ruandeses com a remessa de ovos grátis. Resultado: o mercado ficou abarrotado de ovos grátis, e o empreendedor local veio a falência porque a população não mais adquiriu os ovos produzidos por si.

Esse é apenas um dos inúmeros exemplos contidos no documentário. Caso semelhante é o do arroz subsidiado por ONG’s e governos no Haiti. Novamente o resultado é a falência de negócios e empresa locais em razão da concorrência desleal, seguindo a lei da oferta e da procura. A inserção artificial de arroz no mercado haitiano diminui significativamente o preço desse produto no mercado, destruindo os negócios dos produtores locais. Empregos e renda são extintos, por tabela. 


A grande questão é que, uma hora ou outra, a bem intencionada igreja irá cessar o envio de ovos, assim como cessará os subsídios estrangeiros ao arroz. Como a produção local foi dizimada pelas ajudas externas, a população novamente se verá sem acesso a ovos e arroz, ficando fadada a miséria e a pobreza.

A partir da análise da narrativa desses casos, a primeira impressão é a de que o documentário entende que ajuda humanitária nunca é bem vinda. Tal interpretação é totalmente equivocada. A ajuda humanitária somente deve ser adotada em circunstâncias excepcionais e mesmo assim dentro de certo lapso temporal. Caso contrário, isto é, caso a implementação de ação humanitária seja adotada sem a adoção de critérios básicos, certamente provocará a indústria da pobreza, altamente lucrativa para certos atores.

Os reais beneficiários desse complexo global de ajuda humanitária, desprovida da devida responsabilidade, é um seleto grupo de sujeitos, lobistas e empresas que fazem parte desse sistema, formado por Governos, ONG’s, lobistas, empresas, famosos etc. Esse complexo global funciona da seguinte forma. A população efetua o pagamento de tributos para os governos ou promove a doação de dinheiro diretamente para ONG’s e demais entidades de ajuda humanitária.

Os governos repassam as verbas adquiridas do pagamento de tributos da população para países em subdesenvolvimento, Banco Mundial, ONU, ONG’s, entidades sem fins lucrativos, empresas que prestam serviço ou produtos desse naipe. Geralmente a população geral e alguns famosos endossam a causa (mas desconhecem as conseqüências). O final da história de todo esse processo é notório. As populações em situações de extrema pobreza recebem os alimentos e produtos.


Ocorre que, no final das contas, todo esse complexo global não provoca o fim da pobreza e da miséria. Muito pelo contrário, acaba por provocar o ciclo altamente vicioso de manutenção da pobreza, pelo simples fato de que dar de graça mantém a população dependente, sendo incapaz de gerir seus próprios negócios, empreender, produzir, gerar empregos e fazer a economia girar.

Nesse sentido, a pobreza e sua manutenção é um ótimo negócio para a indústria humanitária, provocando a denominada “escravidão econômica”. Uma das entrevistadas afirma mais ou menos o seguinte: “Quanto mais pessoas defenderem ajuda externa, mais estará condenando a população africana a ficar subjugada a ditadores. [...] Ajuda humanitária somente é bem vista em casos excepcionais.” A lógica deveria ser diversa: priorizar o desenvolvimento da educação e o amparado ao desenvolvimento econômico interno. 

A ideia geral de muitos dos entrevistados africanos, desde ativistas até empresários e empreendedores, é de que somente a África e o povo africano poderão construir seu próprio destino. Por mais que o povo seja humilde intelectualmente e economicamente, todos possuem plenas condições de construir nações prosperas. E a ajuda humanitária, envolvendo Governos, ONU, Banco Mundial, não priorizam essa agenda.

Ainda nesse contexto, chama-se atenção a existência de concorrência desleal entre empresas africanas com relação a empresa americanas e européias. Governos, ONG’s e demais agentes acabam por privilegiar a contratação de empresas estrangeiras em detrimento das empresas locais, muito por força de lobistas, já que as contratações envolvem quantias significativas de dinheiro. A lógica deveria ser inversa, privilegiando e as empresas, indústrias e os povos locais.

Haiti é outro grande exemplo do fenômeno de manutenção da pobreza produzida pela ajuda externa desprovida de critérios/limites. Após o devastador terremoto de 2010, inúmeras ONG’s se instalaram naquela nação. Atualmente o Haiti é um dos países que mais possuem ONG’s em proporção a quantidade da população. Ainda assim essa nação permanece um dos países mais pobres do mundo, muito por causa justamente da ajuda humanitária desprovida de critérios. 

E aqui o fenômeno é semelhante ao exemplo do produtor de ovos de Ruanda. Um empresário e empreender haitiano do ramo de energia solar destacou que a doação externa gratuita de painéis de energia solar prejudicou e pôs em risco sua atividade empresarial que gera emprego e renda para a população local, ao contrário dos painéis solares produzidos e vindos de outros países.

Ainda no contexto social haitiano, o documentário traz a baila uma discussão muito interessante e séria envolvendo orfanatos e a adoção de crianças. Aqui novamente surge a ideia de Durkheim a respeito do “fato social”. Culturalmente e socialmente, a adoção de crianças órfãs é uma prática antiga, digna de filme. O sistema de ajuda humanitária acabou por criar as crianças órfãs economicamente. 

Trata-se dos casos de mães haitianas que decidem colocar seus filhos para adoção para proporcioná-los uma melhor qualidade de vida. Surge um ciclo vicioso altamente maléfico para as crianças que nunca mais poderão ter contato com seus pais biológicos. Muito mais digno e eficiente do que adotar crianças seria fomentar a criação de negócios, empresas e atividades econômicas nesses locais, gerando renda para que as mães haitianas possam trabalhar e auferir renda para criar seus próprios filhos. É o caso  de uma empresa haitiana relatada no documentário.

Aliando-se a linha de raciocínio do livro “Porque as nações fracassam – As origens do Poder, da prosperidade e da pobreza”, de Daron Acemoglu e James Robinson, o documentário explora que a prosperidade das nações subdesenvolvidas não será resultado da ajuda externa, por mais bem intencionada que ela seja. Somente a população local poderá construir uma nação minimamente digna, cabendo a todo o complexo global de ajuda humanitária alterar totalmente sua agenda de prioridade. 

A proposta dessa nova agenda deveria focar na criação de instituições políticas e econômicas inclusivas capazes de gerar desenvolvimento duradouro dessas nações, como a instauração de Estado Democrático de Direito, desenvolvimento da educação e dos negócios, direito de propriedade, livre mercado, criação de sistema legal, estímulo a livre iniciativa, desenvolvimento da tecnologia e a destruição criativa.


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* A presente resenha foi produzida para os "Jovens Líderes", instituto com objetivo de formar empreenderes e líderes comprometidos com o contínuo desenvolvimento do Espírito Santo e do Brasil, a partir de uma proposta desvinculada do sistema tradicional e baseada nos princípios liberais.


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